sábado, 5 de abril de 2008


~ Soneto 35 ~


Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

William Shakespeare

Imagem: http://www.deixapralaflor.blogger.com.br/casal%20na%20janela%20ao%20luar.jpg

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Gondoleiro do Amor


Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Antônio Frederico de Castro Alves

Imagem: http://indoleromantica.blogs.sapo.pt/arquivo/chuva-casal.jpg

sexta-feira, 21 de março de 2008


Se me foi negado o amor, por que,

então, amanhece; por que sussurra

o vento do sul entre as folhas recém nascidas?

Se me foi negado o amor, por que,

então, a meia noite entristece,

com nostálgico silêncio, as estrelas?

E por que este tolo coração continua,

esperançoso e louco, espreitando o mar infinito?



Rabindranath Tagore


Imagem: http://lucasandpeyton.com/gallery/index.php